A ciência contra-ataca

Por Frederico Franz*

Se você esteve no planeta terra nos últimos dois anos, é provável que tenha se deparado com a expressão “pós-verdade”. A palavra, aliás, foi eleita em 2016 como o termo do ano pelos especialistas da Universidade de Oxford, no Reino Unido. “Pós-verdade” descreve circunstâncias nas quais fatos objetivos têm menos importância do que as crenças pessoais. Isso aconteceu, por exemplo, quando partidários do Brexit (a saída do Reino Unido da União Europeia) alegaram que fazer parte do Bloco custava cerca de US$ 470 milhões por semana aos cofres ingleses. A afirmação era falsa, mas fez parte de uma estratégia bem-sucedida de apelar para especulações que despertam aversão e forçam as pessoas a agirem induzidas pelo medo.

É exatamente por isso que o documentário Food Evolution é tão contemporâneo e relevante. O filme de Scott Hamilton Kennedy aborda o debate sobre os alimentos geneticamente modificados (OGM) ou, como são conhecidos popularmente, transgênicos. O tema, embora hoje já seja tratado com um pouco mais de razoabilidade, principalmente no Brasil, ainda está repleto de hipóteses assustadoras que a ciência não só rejeita, como diz o contrário. Apenas para mencionar uma fonte de alta credibilidade presente no filme, a Academia Nacional de Ciências, Engenharia e Medicina dos Estados Unidos atestou, em 2016, que em nenhum estudo foram encontradas evidências de efeitos adversos derivados do consumo de transgênicos em seres humanos ou em outros animais.

Neil de Grasse Tyson entre o diretor Scott Hamilton Kennedy e o produtor Trace Sheehan

Essa publicação se soma a diversas que chegaram à mesma conclusão: os transgênicos aprovados até hoje são tão seguros quanto outros alimentos, inclusive do ponto de vista ambiental. Apesar disso, não é exatamente incomum que apareçam histórias alarmantes sobre o assunto, especialmente na internet. É nesse ponto que o filme do diretor indicado ao Oscar de melhor documentário em 2009 se conecta muito bem à nossa realidade. A obra tenta trazer à tona o que, de fato, é ciência e o que é crença cega típica da pós-verdade em meio às discussões sobre os transgênicos. A certo momento do filme, a ativista antitransgênicos e fundadora do movimento Moms Across America, Zen Honeycutt, afirma que confia mais em outras mães que postam nas redes sociais ou em blogs do que em médicos ou em agências governamentais. “Elas são reais, eu não preciso de um estudo científico”, afirma, categórica.

Vivemos em um período muito particular na história da comunicação. Com o advento da internet e das mídias digitais, nunca foi tão farta a oferta de informações. Apesar disso, paradoxalmente, esse acesso ao conhecimento não veio acompanhado de uma maior valorização da ciência. Para demonstrar essa contradição dos tempos atuais, o filme traz também os depoimentos de diversos cientistas e pesquisadores. Para guiar o espectador, contamos com a narração de Neil de Grasse Tyson, doutor em astrofísica e talvez um dos mais conhecidos divulgadores científicos da atualidade.

O documentário estreou nos Estados Unidos em junho de 2017 e, no Brasil, terá sessões especiais apresentadas pela Scientific American Brasil. As exibições vão acontecer na Semana Mundial da Alimentação, dia 19 de outubro em São Paulo, dias 19 e 20 em Goiânia e dia 23 em Porto Alegre. Para saber mais sobre alimentos transgênicos e sobre como assistir ao filme, basta ficar ligado na página Scientific American nas redes sociais ou acompanhar as atualizações do site da revista.

Para saber mais:

Oxford – Word of the Year – http://bit.ly/2eZ7eQt

IMDB – The Internet Movie Database – Food Evolution – http://imdb.to/2ytw5tY

Genetically Engineered Crops: Experiences and Prospects – The National Acamies of Sciences, Engineering and Medicine – https://nas-sites.org/ge-crops/

Mais informações sobre a exibição do filme no Brasil – Scientific American Brasil – http://bit.ly/2y4j5d6

Artigo originalmente publicado na edição de outubro de 2017 da revista Scientific American Brasil


*Frederico Franz é jornalista, especialista em mídias digitais e coordenador de comunicação do Conselho de Informações sobre Biotecnologia (CIB).