Estudo aponta como cafeicultores podem reduzir dependência de fertilizantes

Um levantamento feito pelo pesquisador Gustavo Rosa, do Departamento de Solos da Universidade Federal de Viçosa (UFV), em 466 propriedades da região da Zona da Mata de Minas Gerais, mostrou que 60% das lavouras de café tinham o teor de potássio no solo em condições boas ou elevadas e 30% com teor muito elevado. As informações partem da própria universidade. Segundo o pesquisador, o fato se deve a aplicações recorrentes de fertilizantes com potássio e que neste caso, a recomendação é reduzir ou até não fazer a adubação. “O produtor deve, portanto, trocar o fertilizante e adequar a adubação, economizando dinheiro. O excesso de potássio no solo pode, inclusive, reduzir a produtividade e a qualidade da bebida do café”, disse Rosa.

O professor Reinaldo Cantarutti, também da UFV, explica que, embora o Brasil seja uma potência mundial na produção e exportação de alimentos, os solos do país são pobres em nutrientes e por isso, a adubação é fundamental para garantir produtividade. Essa deficiência faz com que o Brasil importe 80% dos 40 milhões de toneladas de adubos que consome a cada ano, segundo dados da Associação Nacional para Difusão de Adubos (Anda).

A fórmula mais comum de fertilizantes, utilizada também aqui no país, o NPK, é formada por nitrogênio (N), fósforo (P) e potássio (K), combinados em variadas proporções. A produção dos adubos depende muito da importação dos fertilizantes simples, principalmente de potássio, cujas principais minas estão justamente na Rússia, Belarus e Ucrânia. “Quase a metade de todo o potássio que usamos vem destas áreas de conflito mundial. Outra parte vem do Canadá, mas a demanda será muito grande a curto prazo para termos um só fornecedor”, afirma o professor.

As fontes de NPK no Brasil

No caso dos adubos nitrogenados, pesquisas realizadas no Brasil já reduziram muito a dependência externa. O país é referência em uso eficiente de bactérias fixadoras de nitrogênio em leguminosas, como a soja. Para outras culturas, como o milho e o algodão, no entanto, o nutriente também é importado, em grande parte dos países em conflito. “Se reativássemos as fábricas da Petrobras que foram fechadas e produziam amônia, matéria-prima para a fabricação de fertilizantes nitrogenados, e se avançarmos na construção das novas indústrias que estão previstas, poderíamos reduzir bastante a dependência interna, mas isso só se dará a médio prazo”, explica Edson Mattiello, também professor do DPS e especialista em fertilidade do solo e fertilizantes.

Há alguns anos, a equipe do professor Cantarutti desenvolve pesquisas que focam soluções tecnológicas para a ureia, visando reduzir perdas de amônia na fabricação dos nitrogenados. Ainda assim, o Brasil depende da importação de gás natural, necessário ao processo de produção. Uma das soluções encontradas pelos pesquisadores foi recuperar a amônia volatilizada de resíduos animais, encontrada em camas de frango. O processo já está em fase de escalonamento para ajustá-lo à produção industrial.

No caso do fósforo, o Brasil importa atualmente cerca de 60% do que utiliza. Mas, segundo os especialistas da UFV, há novas reservas de apatitas – a fonte para o nutriente – que podem ser exploradas para reduzir a dependência da importação. “Antes de mais nada é preciso dizer que a autossuficiência em fertilizantes no Brasil é uma ilusão. O que podemos fazer é reduzir a dependência”, lembra Mattiello.

Segundo os especialistas, o maior problema para o Brasil é o potássio. A importação do KCL, principal fertilizante do país, chega a 96% do que é consumido na agricultura, onde metade vêm justamente da Rússia e Belarus e o restante do Canadá e Israel.

Segundo o professor Cantarutti, o Brasil é pobre em minas para extração deste elemento e não há como contornar a dependência. Ele conta que o país já prospectou em todo o território, mas não temos abundância dos minerais tradicionais para a produção de potássio: a silvinita, silvita ou carnalita. As reservas em Sergipe, atualmente exploradas, tem o potencial de produção muito menor do que nosso consumo e estão em estágio avançado de extração.

A principal reserva prospectada, de acordo com o professor, encontra-se na Amazônia, em área de reserva indígena, e sua exploração é praticamente inviável. As reservas ocorrem em camadas de 3 a 5 milímetros de espessura, ou seja, muito pouco para justificar um investimento. Elas ainda estão a profundidades que chegam a até mil metros da superfície, o que dificulta muito a extração e envolve custos elevados.

Pó de rocha como alternativa viável

Ainda de acordo com os especialistas, existem fontes alternativas de potássio, como rochas contendo micas e feldspatos, mas a quantidade de nutrientes disponíveis nelas também é muito pequena, comparada às fontes tradicionais. E elas ainda apresentam baixa eficiência agronômica. Algumas fábricas costumam triturar essas rochas, dando a elas o nome “pó de rocha ou remineralizadores”.

No entanto, Edson Mattiello explica que a solubilidade delas é muito baixa, ou seja, mesmo que seja finamente moído, o potássio vai precisar de muito tempo para ser liberado e estar disponível para as plantas. “Já estudamos muito este assunto e a rochagem está longe de ser uma solução mágica para a crise de oferta de potássio. Há muitas inverdades sendo ditas neste momento e é preciso ter cuidado”, afirma o professor.

Ainda para ele, os remineralizadores podem ser viáveis para culturas de crescimento lento como as pastagens, por exemplo. No caso das anuais, como a soja e o milho, ou mesmo o café, a iniciativa seria interessante apenas para solos que já têm fertilidade construída ou para substituição parcial da adubação com potássio.

Mattiello ressalta que muitas rochas, com baixa concentração de nutrientes, não devem ser usadas como substitutas dos fertilizantes, pois a quantidade de nutrientes liberados no solo seria insuficiente às demandas das culturas e levaria ao progressivo esgotamento da reserva disponível do solo.

“Devemos priorizar as rochas com maior potencial na busca por alternativas aos fertilizantes tradicionais. Os remineralizadores são diferentes, mas a legislação atual permite a comercialização indistinta destes materiais. Praticamente qualquer rocha pode ser comercializada como remineralizador, portanto, o produtor precisa estar atento a isso, pois o barato pode sair muito caro”, alerta Mattiello.

Possível solução para os fertilizantes

A equipe do Departamento de Solos tem várias pesquisas e contribuições para produtores com a utilização de outras fontes alternativas de potássio que são viáveis, mas apenas para usos regionais. Entre elas, rochas mais ricas em potássio e outros nutrientes, como o verdete, fonolito e kamafugito, e resíduos orgânicos e agroindustriais, como cascas de café, por exemplo. “Toda fonte é importante e precisa ser considerada, mas, neste caso, o reaproveitamento de materiais reutilizados só é viável se estiverem próximos aos futuros plantios”, afirma Cantarutti.

A equipe coordenada pelo professor Mattiello já está patenteando um produto que aumenta a solubilização do potássio em pó de rochas. Para isso, foi usada uma bactéria que produz o ácido sulfúrico biogênico, capaz de solubilizar o mineral para liberação do potássio. A patente envolve o desenvolvimento do produto e a fabricação do fertilizante. “Conseguimos dobrar a eficiência do pó de rocha, mas ainda precisamos otimizar a produção do ácido biogênico em biorreatores e escalonar a produção”.

“A utilização de microrganismos capazes de promover a solubilização de rochas pode ser uma alternativa econômica e ambientalmente viável para o aproveitamento de fontes de P e K de baixa solubilidade com ampla ocorrência no estado de Minas Gerais”, lembra Mattiello, orientador do trabalho. Ainda para ele, o processo de fabricação do fertilizante é econômico e ambientalmente viável, com bom aproveitamento agronômico.

Também em parceria com a Embrapa, os pesquisadores do Departamento de Solos têm pesquisado o uso de nanocompostos de carbono em fertilizantes minerais. Com isso, a indústria poderá produzir fertilizantes mais baratos, de maior valor agregado, e gerar economia com transporte e armazenagem. “Temos uma grande oportunidade de melhorar a matriz de fertilizantes minerais, produzindo formulações mais concentradas em nutrientes, estáveis e de maior eficiência agronômica”, diz Mattiello.

Produção de café sem fertilizantes

O professor Mattiello conclui que a crise na importação dos adubos não pode ser evitada a curto prazo e que a solução é reativar e ampliar a produção de adubos nitrogenados, avançar nos estudos e na produção de fertilizantes alternativos de potássio que sejam mais eficientes, reaproveitar resíduos agroindustriais e conhecer a fertilidade do solo para realizar o manejo adequado e uso racional de fertilizantes para enfrentar a atual situação.

Fonte: https://www.canalrural.com.br/